segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Ford colocando os carros à prova – rigor e respeito ao consumidor

Um automóvel antes de ser lançado precisa passar por um extenso conjunto de testes feitos por seu fabricante. Mas não só isso. Mesmo com o veículo já em produção sua qualidade e adequação aos parâmetros de projeto devem se manter constantes. Para isso uma fração dos carros que saem da linha de produção precisam ser constantemente analisados para monitorar e garantir a permanência da qualidade ao longo da produção. Este processo é relativamente parecido em todos os fabricantes. Porém alguns o fazem com maior ou menor detalhamento, minúcia e rigor. 

Tive a oportunidade de ver isso de perto em uma visita ao campo de provas da Ford em Tatuí, interior de São Paulo no mês de agosto passado no que ficou conhecido como “Ford Experience”. Fiquei sobremaneira impressionado com o que vi. Neste local com mais de 4.6 milhões de metros quadrados já foram percorridos mais de 250 milhões de quilômetros nos seus 37 anos de existência.


Vou tentar mostrar um pouco de cada posto de teste que visitei. Não pense você que um campo de provas se resume a uma pista com muitas condições de terreno. De fato, há dezenas de quilômetros (mais de 50 quilômetros) de pistas asfaltadas, de terra, com obstáculos, subidas, descidas, retas longas, curvas abertas, fechadas, etc.


Mas além disso existem “ilhas” de testes específicos em diferentes laboratórios equipados para a realização de mais de 100 testes, como desempenho e consumo de combustível, emissões, evaporação, arrefecimento, freios, penetração de água e poeira, cabines de névoa salina, nível sonoro interno e externo, dinâmica veicular, calibração e desenvolvimento de motores e durabilidade. Conta também com uma oficina experimental para a construção de protótipos.


Imagem 01 – Alguns dos pontos da pista de testes

O campo de provas existe desde 1978 e vem sendo aperfeiçoado de acordo com as necessidades. Por exemplo, os últimos lançamentos da Ford como o Focus Fastback, Focus Hatch, KA, KA+ e Ecosport passaram por estes testes, bem como os lançamentos dos últimos 37 anos, carros, picapes, caminhões, etc.


Uma visão geral do “Ford Experience”, minha vista ao Campo deProvas de Tatuí e seus diferentes laboratórios pode ser visto aqui neste interessante e lúdico vídeo que mostra os laboratório por meio de uma divertida metáfora de vídeo game.


Dirigibilidade: pistas de teste

Existem 50 km de pistas para testes de desenvolvimento e durabilidade que simulam diferentes tipos de ruas e estradas da América do Sul, relacionados com outros campos de provas da Ford no mundo. Há seções de pistas pavimentadas de alta e baixa velocidade, labirinto, colinas, rampas com diferentes ângulos de inclinação e estradas de terra e lama. O objetivo é garantir que os veículos cheguem ao mercado preparados para atender todos os requisitos de qualidade, funcionalidade e eficiência.

Todas as pistas são dotadas de um rígido sistema de segurança, que inclui sinalização especial, controle de acesso, cercas e passagens subterrâneas para animais silvestres e treinamento de todo o pessoal operacional e de apoio. Sua estrutura inclui também equipe médica e bombeiros com equipamentos para atendimento de urgência e resgate.


Imagem 02 – visão aérea parcial da pista de testes da Ford em Tatuí

Silêncio: qualidade sonora

Cada som emitido pelo carro, desde o ronco do motor, fechamento de porta ou sinal de pisca, ajuda a construir a “personalidade” do produto. O nível de ruído na cabine é importante para o conforto acústico e padrão de qualidade percebidos pelo consumidor.

Todos esses elementos são analisados e refinados nos carros da Ford no laboratório acústico com equipamentos e softwares que permitem registrar, quantificar e identificar cada tipo de som. Um desses novos equipamentos é o VisiSonics, que conta com múltiplos microfones e câmeras para gerar um mapa de 360 graus capaz de sobrepor sons e imagens. Com ele, os engenheiros da área de Ruídos, Vibrações e Asperezas (NVH) conseguem identificar a origem de sons em cada ponto da cabine e adotar ações para a melhora da sua qualidade ou anulação.

O objetivo é buscar o menor nível de ruído interno na cabine do veículo, considerando diferentes tipos de pistas, para permitir, por exemplo, uma melhor compreensão da fala entre os ocupantes e, consequentemente, um melhor conforto acústico”, diz Jorge Marano, engenheiro de testes de NVH.


Imagem 03 –laboratório de qualidade sonora

Conforto: simulador de rodagem

Para garantir o conforto ao dirigir em qualquer situação de solo, bem como avaliar eventuais rangidos na estrutura, suspensão e níveis de vibração, existe um laboratório que permite isolar e avaliar separadamente áreas chaves do veículo.

O simulador de pistas (também conhecido como "Four Poster") é composto de quatro pilares que sustentam e movimentam as rodas do veículo por meio de atuadores hidráulicos. Estes são controlados por softwares capazes de reproduzir mais de 30 tipos de pistas do Brasil e outros países.
 
Com ele é possível verificar como a suspensão de um protótipo se comporta, por exemplo, em uma estrada da China, Chile, Argentina, locais do Brasil..., sem precisar levar o carro até lá e sem interferências externas. O programa de simulação reproduz as mesmas forças e frequências do tipo de piso selecionado.

Na cabine, instalamos acelerômetros na direção, nos apoios de cabeça dos bancos, na alavanca do câmbio e no chassi, além de microfones para medir o nível de ruído e conforto do motorista e dos passageiros com a suspensão do carro em movimento", explica Wanderley Pella, engenheiro de Testes.
   

Imagem 04 –laboratório de simulação de rodagem por diversos tipos de piso

Eu fiz um breve vídeo durante minha visita neste laboratório que pode ser visto aqui. Tive também o meu momento de estar dentro do carro que foi submetido a um variado perfil de rodagem com deslocamentos verticais, horizontais, inclinações, etc. Muito prático e interessante.
   


Sustentabilidade: laboratório de emissões

O Brasil tem adotado normas cada vez mais rigorosas para o limite de emissões dos veículos bem como outros países do mundo. No Laboratório de Emissões a Ford realiza todos os testes desses gases para o desenvolvimento e calibração de motores, homologação de veículos, controle de qualidade da produção e acompanhamento da durabilidade de componentes.

O laboratório conta com modernos dinamômetros e sistemas analisadores de gases para ensaios de motores a gasolina, flex ou diesel, de acordo com as normas brasileiras e europeias. “Entre outras inovações, já estamos equipados para a homologação de veículos com a norma Euro 6 de motores diesel para a Argentina e o Chile, que só deverá ser adotada no Brasil em 2018”, diz Astor da Silva Filho, supervisor do Laboratório de Emissões.

A área também conta com uma câmara Shed (Sealed Housing for Evaporation Determination) para medir as emissões que o carro produz no ambiente quando está desligado. Ela simula as variações de temperatura ao longo do dia e mede a concentração de hidrocarbonetos na evaporação de combustível, pneus, graxa e outros componentes, com sensores e analisadores.


Imagem 05 –laboratório de emissão de gases e consumo de combustível

Economia: laboratório de consumo de combustível

No mesmo laboratório de emissão de gases também é o local onde é medido o consumo de combustível dos veículos. Este laboratório foi o que mais me chamou a atenção. Não que os outros não tenham capturado minha atenção. Nada disso, são extremamente sofisticados e interessantes. Mas o laboratório de aferição de consumo e emissões de poluentes me interessa particularmente.

Sempre fui muito ligado a este tipo de informação e bastante preocupado com estas características dos veículos. Aliás, pouco mais de um ano atrás eu compartilhei com os leitores minhas descobertas sobre como são aferidas as informações sobre emissões e consumo de combustíveis dos veículos e falei um pouco sobre esta metodologia. Relatei isso no texto “A tecnologia por trás da eficiência energética dos veículos”. Da mesma forma discuti o assunto economia de combustível no vídeo “Dicas para economizar combustível, do fusca ao Rolls Royce, apesar da tecnologia” em conversa com Guido Orlando do site Vida Moderna.


Mas dessa eu tive a oportunidade de ver com meus próprios olhos em detalhes como toda essa medida é feita. Estes testes de emissão e consumo são realizados seguindo normas rígidas determinadas pelo INMETRO e ABNT. O governo tem um programa de “etiquetagem” de eficiência energética (que eu explico no texto supra citado) que engloba não só carros, mas também todos os dispositivos que gastam energia e podem gerar emissão de poluentes.


Os dinamômetros e esteiras rolantes conduzem o carro (e seu piloto de testes) por ciclos padronizados de acelerações, desacelerações, pausas, retomadas, paradas, etc. de forma a simular um trajeto de condução em cidade. Da mesma forma existe o roteiro que simula trânsito em estrada com maior parte do tempo em velocidades constantes e algumas acelerações e desacelerações, como acontece ao se dirigir em uma rodovia. Assim reproduzir em ambiente controlado, passível de reprodução controlada, passa a ser possível. Assim podem ser comparados em total igualdade de condições diferentes versões do mesmo carro bem como comparar com veículos de outros fabricantes.


Eu fiz um breve vídeo durante minha visita neste laboratório que pode ser visto aqui. Neste vídeo eu mostro o processo de simulação de um percurso “urbano” e também como são coletados os gases de escapamento para análise.


Eu fiquei profundamente curioso com esta ferramenta neste laboratório. Pensei em propor para a Ford um ensaio para descobrir para cada carro qual seria a proporção ideal de combustível, parte gasolina e parte etanol, de forma a descobrir qual seria a proporção mais econômica em termos de gasto por quilômetro rodado... Mas ao conversar com o engenheiro responsável pelo laboratório ele me informou que há agenda tomada em três turnos para usar este ferramental muitos meses de hoje adiante. Mas fica a ideia. Será que a Ford toparia um estudo desses? Eu me habilito para acompanhar de perto!

Conclusão


Comecei este texto dizendo que campos de prova e laboratórios são usados por toda a indústria automobilística. Quis o destino que eu pudesse conhecer o campo da Ford em Tatuí. Com seus 37 anos pode se ver que vem sendo adaptado, modernizado e ampliado conforme surgem necessidades (por exemplo aferir emissões e consumo – algo mais recente). A diversidade de cenários, tipos de piso, características de rodagem, curvas, retas, aclives, etc. é para mim grande destaque.


Na parte final da visita andamos por 30 minutos em um Focus Fastback dirigido por um piloto de provas da Ford nessa pista com todas as variações que citei, em todas as velocidades. Desde muito devagar em pisos irregulares até 140 Km/h em retas e curvas de raio longo para perceber as reações do carro. Sensacional! E o Focus Fastback foi muito competente em todas as situações.


Imagem 06 – Ford Focus Fastback sendo submetido a testes na pista de provas

Saio desta visita bastante impressionado com o grau de detalhes, a minuciosidade das observações possíveis de serem feitas aqui e com o cuidado e respeito ao consumidor. O campo de provas tem uso contínuo, pois mesmo que se em algum momento não houver um modelo novo que requeira testes iniciais, a Ford submete um percentual de sua produção, de todos os modelos, continuamente para se certificar de que a qualidade do produto final permanece constante (dentro das pequenas margens de tolerância existentes). Espero ter sido a primeira de mais visitas que realizo neste campo de provas.

Imagem 07 – teste em progresso  

2 comentários:

  1. Show de bola, rs... Deu até vontade de comprar um Ford! Hahahaaha

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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