quarta-feira, 9 de setembro de 2026

SAP Now AI Tour: A IA já está no SAP. Agora vem a parte mais difícil


Há alguns anos, a pergunta era quando as empresas começariam a usar inteligência artificial. Depois veio outra, como usar. Agora, pelo que ouvi de Rui Botelho, presidente da SAP Brasil, durante uma entrevista no SAP Now AI Tour, a discussão mudou novamente. A IA já está nas empresas. O desafio é outro: como tirá-la dos pilotos e colocá-la de fato dentro da operação.

“A pergunta talvez fosse se as empresas de fato iam adotar”, disse Rui. Só que isso já ficou para trás. Segundo a pesquisa realizada pela SAP com a Oxford Economics, as empresas brasileiras investem, em média, US$ 20,8 milhões em IA, contra US$ 14,2 milhões no levantamento anterior. A intenção é aumentar esse investimento em 46% nos próximos dois anos. O ROI médio, que era de 16%, chegou a 19% e pode alcançar 38%.

Mas há uma curiosa contradição nesses números. Ao mesmo tempo em que o investimento cresce, 65% dos executivos ainda não estão convencidos de que as iniciativas de IA estejam entregando todo o potencial possível. É justamente aí que aparece, para mim, o ponto mais interessante da conversa, a diferença entre implementar IA e conseguir extrair valor dela.

Rui resumiu isso de maneira bastante direta: “Existe então essa lacuna entre o implementar a IA e o extrair todo o potencial da IA.”

É nesse espaço que a SAP está tentando posicionar sua própria evolução. O ERP, que durante décadas foi associado ao registro de transações e à gestão de processos, passa agora a incorporar IA e agentes como parte da própria operação. Na visão de Rui, o ERP é o “cérebro” desse movimento porque reúne dados, aplicações, processos e, principalmente, o contexto de negócio necessário para que a IA não funcione isoladamente.

E o problema, segundo ele, não está mais na tecnologia. Modelos de linguagem surgem em velocidade impressionante. O gargalo está em outro lugar: dados, governança, qualificação e estratégia. Para 75% dos entrevistados, dados e governança são o principal desafio.

Há ainda um dado que chama atenção: 77% veem potencial transformador nos agentes de IA e 55% já fizeram algum tipo de piloto. Só que apenas 3% dizem estar totalmente preparados para escalá-los.

Por quê? Porque fazer um piloto isolado é relativamente fácil. O difícil é fazer a IA conversar com a empresa inteira.

É justamente aí que entra a ideia de Autonomous Enterprise defendida pela SAP. Não se trata apenas de automatizar tarefas, mas de conectar as diferentes áreas da empresa para que uma decisão tomada em um ponto provoque, automaticamente, as consequências necessárias em outros. Rui usou o exemplo de um fornecedor que deixa de entregar uma matéria-prima. O problema não fica apenas em compras, pode afetar produção, pessoas, vendas, atendimento ao cliente e, finalmente, o caixa.

Foi nesse ponto que fiz a ele uma pergunta que considero central para o futuro dos ERPs: se eles caminharão cada vez mais para a automação, onde fica o limite entre uma empresa automatizada e uma empresa que simplesmente terceirizou suas decisões para máquinas?

A resposta foi talvez uma das mais interessantes da entrevista. “Não é uma questão de automatizar todo o processo. É uma questão de integrar todo esse processo.” E, dentro dele, manter pontos em que o julgamento humano continue bastante necessário.

O motivo é simples e profundo. Uma decisão empresarial nem sempre está escrita em um procedimento. Rui citou exatamente esse exemplo. Diante de um problema de fornecimento, uma empresa pode decidir pagar mais caro para não deixar um cliente estratégico sem atendimento. Outra companhia, diante da mesma situação, pode decidir que a margem não comporta essa escolha.

É o que ele chamou de Company Memory: aquilo que a empresa aprendeu ao longo dos anos, mas que nem sempre está documentado em regras ou sistemas. A inteligência artificial pode ajudar a aplicar esse conhecimento, mas não necessariamente deve eliminar o ser humano da decisão.

No fundo, a conversa revelou que a próxima fase da IA empresarial será menos sobre descobrir ferramentas novas e mais sobre arrumar a casa. Dados precisam estar corretos. Processos precisam estar conectados. A governança não pode desaparecer quando a IA entra em cena. E os resultados precisam ser mensuráveis.

Isso explica também por que a discussão sobre produtividade não pode ser reduzida a “quanto a IA fez”. Perguntei ao Rui como um executivo pode medir o retorno de um investimento quando nem sempre é fácil separar o ganho provocado pela IA de outros fatores. A resposta foi pragmática, definir onde a empresa está, onde quer chegar, estabelecer métricas e comparar o antes e o depois. A SAP usa, para isso, ferramentas como o Signavio.

No encerramento, Rui resumiu sua visão de forma bastante clara: o Brasil “entrou definitivamente nesse movimento” global de IA. Mas não basta abrir a tecnologia para todo mundo. É preciso governança, controle e bons casos de uso que possam ser medidos e depois replicados.

Talvez essa seja a melhor fotografia do atual momento da inteligência artificial nas empresas: a fase da experimentação está amadurecendo. Agora começa a fase, bem mais difícil, de transformar IA em parte da própria organização.

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