Algumas perguntas sobre inteligência artificial passaram a exigir respostas mais urgentes
Nem sempre saímos de um evento com respostas. Às vezes
saímos com perguntas melhores. Há livros que explicam uma tecnologia. Outros
contam sua história. E há aqueles que conseguem algo mais difícil. Fazem o
leitor sair da zona de conforto. Foi exatamente essa sensação que tive ao
participar de um encontro com Karen Hao, jornalista especializada em tecnologia
e autora de O Império da IA em um pré evento do 21º Congresso Internacional
de Jornalismo Investigativo na USP. O livro que foi lançado nesta ocasião em português vem dividindo opiniões em diversos países,
mas talvez por um motivo diferente do que muita gente imagina. Não porque haja
crítica contra a Inteligência Artificial, mas porque desloca completamente o
centro da conversa. Em vez de perguntar até onde a IA poderá chegar, Karen nos
provoca a refletir sobre quem está conduzindo essa transformação, quais
interesses estão em jogo e quem realmente colherá seus benefícios.
Enquanto ela respondia às perguntas, dei-me conta de que
talvez estejamos dedicando tempo demais às respostas e pouco às perguntas. Nos
últimos anos, quase todas as conversas sobre Inteligência Artificial passaram a
girar em torno de modelos maiores, agentes autônomos, GPUs, recordes de
desempenho e bilhões de parâmetros. Tudo isso é fascinante, sem dúvida. Mas
Karen nos convida a olhar para a infraestrutura invisível que sustenta essa
revolução. A IA não nasce apenas de algoritmos. Ela depende de energia, água
para resfriar data centers, minerais estratégicos, cadeias globais de produção,
milhões de pessoas preparando dados e investimentos que apenas um número muito
pequeno de empresas consegue realizar.
Foi justamente nesse ponto que a conversa mais me chamou a
atenção. Karen utiliza a expressão "novo colonialismo tecnológico"
para descrever uma dinâmica que, segundo ela, está se consolidando. Se antes a
disputa era por petróleo, ouro ou rotas comerciais, hoje ela passa por
capacidade computacional, dados, infraestrutura e acesso à tecnologia. A
comparação pode soar provocativa, mas sua argumentação é consistente. Afinal,
poucos países concentram o desenvolvimento da IA enquanto grande parte dos
recursos necessários para sustentá-la está espalhada pelo restante do mundo.
Talvez nunca tenhamos falado tanto sobre Inteligência Artificial e, ao mesmo
tempo, refletido tão pouco sobre quem controla seus alicerces.
Essa visão naturalmente leva a outro tema delicado, a
concentração de poder. Desenvolver modelos de ponta exige investimentos
bilionários, centros de processamento gigantescos e acesso privilegiado a
recursos computacionais. Não é difícil concluir que cada vez menos empresas
conseguem participar dessa corrida. A consequência é que decisões capazes de
influenciar mercados, governos e bilhões de usuários passam a ficar
concentradas nas mãos de um grupo extremamente reduzido de organizações. Não se
trata de condenar o sucesso dessas empresas. A questão é compreender quais são
os efeitos de uma concentração dessa magnitude.
Outro aspecto interessante da conversa foi lembrar que
existe muito trabalho humano escondido atrás daquilo que costumamos chamar
simplesmente de IA. Antes que um modelo consiga conversar conosco, interpretar
imagens ou produzir um texto, houve milhares de pessoas classificando
informações, revisando respostas, corrigindo inconsistências e preparando bases
de dados. É um trabalho quase invisível, distribuído por diversos países e
raramente lembrado quando celebramos os avanços da tecnologia. Talvez seja justamente
por permanecer fora dos holofotes que esse tema mereça ainda mais atenção.
Confesso que um dos pontos de que mais gostei foi perceber
que Karen não faz um discurso catastrofista. Em nenhum momento ela demoniza a
Inteligência Artificial. Pelo contrário. Reconhece seu enorme potencial para
acelerar pesquisas, melhorar serviços, ampliar acesso ao conhecimento e
transformar praticamente todos os setores da economia. Sua preocupação está em
outro lugar. Quem define as prioridades? Quem estabelece as regras? Quem
controla os dados? Quem decide quais problemas merecem investimento? São
perguntas menos sedutoras do que falar sobre novos modelos, mas provavelmente
muito mais importantes.
A inevitável disputa tecnológica entre Estados Unidos e
China também apareceu na conversa. Costumamos enxergá-la apenas como uma
corrida empresarial ou geopolítica. Karen propõe uma leitura mais ampla. Para
ela, essa competição representa uma disputa pela capacidade de estabelecer
padrões tecnológicos que poderão influenciar a economia mundial durante
décadas. A Inteligência Artificial deixa de ser apenas uma tecnologia
promissora para assumir um papel estratégico semelhante ao que energia,
telecomunicações e internet desempenharam em outros momentos da história.
Saí daquele encontro com uma sensação curiosa. Continuo tão
otimista quanto antes em relação ao potencial transformador da Inteligência
Artificial. Talvez até mais. Mas também saí convencido de que estamos fazendo
perguntas incompletas. Tenho a impressão de que passamos tempo demais
discutindo qual será o próximo modelo, qual empresa lançará a próxima inovação
ou qual agente será mais inteligente. Talvez a pergunta realmente importante
seja outra. Quem está desenhando essa nova infraestrutura digital sobre a qual
construiremos boa parte da economia, da educação, da comunicação e até da
produção de conhecimento nas próximas décadas?
Foi justamente essa mudança de perspectiva que mais me
marcou neste encontro. O maior mérito de Karen Hao talvez não seja oferecer
respostas definitivas. É nos obrigar a olhar para uma camada que normalmente
permanece invisível. A tecnologia continuará evoluindo em ritmo acelerado. Isso
parece inevitável. O verdadeiro debate, porém, talvez não esteja na capacidade
que a Inteligência Artificial terá de fazer cada vez mais coisas. Esteja, isso
sim, na forma como escolheremos governar esse poder e em benefício de quem ele
será exercido.
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